Mundo Cruel

Leia este texto ouvindo o CD Ultraviolence da Lana Del Rey. As músicas que me acompanharam nessa escrita estarão contidas no final do texto.
Foto de autoria própria. Para ver mais me siga no Instagram @vikguima.

Era tarde quando me ligou e eu estava quase cochilando no sofá. — Alô?! Sua voz me estremeceu e não pude dizer uma palavra se quer. Eu estava parado, pensava não mais ouvir a sua voz, ter a sua presença. Respondi com um singelo e assustado “olá”.

Ele tinha ficado mudo por alguns segundos – creio que estava pensando em algo para me dizer. Talvez o seu sumiço repentino. Até que finalmente ele perguntou: — Como você está? Eu não me contive e o questionei: — Como você queria que eu estivesse depois que você me deixou? Eu estou mal, ainda me recuperando de sua perda e você? Eu tive medo dele desligar o telefone e não me ligar nunca mais, mas o inesperado aconteceu e ele me respondeu timidamente e com uma voz trêmula.
Conversamos por horas e marcamos de nos encontrar em um barzinho boêmio. Confesso que não estava preparado para recepcioná-lo tão inesperadamente, mas algo dentro de mim falava mais alto e queria que esse encontro acontecesse.

Finalmente chega o dia de nos encontrarmos. Eu estava muito ansioso, havia tomado alguns remédios calmantes, mas não funcionaram. Minhas mãos tremiam, minha pele estava pálida e gélida, como se eu estivesse morrido – mas na verdade eu estava morto. Morto por dentro. Havia algo preso na minha garganta. [Eu] tinha certeza que eram as palavras de adeus ou de perdão. Eu estava confuso.
Mais tarde, por volta das 7pm da noite, meu telefone toca e ele diz que está me esperando em frente ao meu portão.

Finalmente nos encontramos. Ele me deu um abraço bem apertado e disse que estava com saudades. Eu pude sentir o seu perfume amadeirado com leves traços florais, sua jaqueta jeans-azul, seu chapéu coco e sua calça com a barra dobrada e amarrotada... e não me esqueci do seu mocassim de cor caramelo.

Por um instante andamos separados pela calçada que estava rodeada de flores e árvores, como se fosse cenário de um livro romancista, até que senti a sua mão querer tocar a minha. Eu recuei. Ainda não estava preparado para tal. Mas meu coração queria poder agarrá-lo e sacudi-lo querendo uma resposta.

Chegamos ao barzinho, sentamos e pedimos uma bebida. Eu, que não sou de beber – ou ao menos não queria, pedi uma Madalena e por incrível que pareça estava no ponto, com todas as frutas e vegetais se conectando. Conversamos por horas a fio.

Nossa conversa foi pautada nas experiências que ele teve e como eu estava levando a minha vida singela e colorida. Tentamos ao máximo fugir de nós. Fugir do que vivemos, mas foi inevitável não falar. Finalmente, ele me disse o motivo de ter se afastado:

— Eu não queria ter que dizer isto, mas acho que você precisa de uma resposta.
— Sim, preciso. Disse eu.
— Eu estava cansado de mim, estava cansado de tudo e de todos. Tentei fugir dos meus problemas, mas eles não fugiram de mim e foi impossível passar um dia sem pensar em nós. Eu sofri muito com isso, mas acho que foi necessário dar esse tempo para mim, para você, para nós.
— Você poderia ter ao menos me comunicado. Pensei que você havia dito que me amava, mas pelo visto, foram apenas palavras soltas pelos ares. Disse eu, com os olhos cheios d’água.
— Não! Exclamou ele. Eu o amo e não sei como pude viver sem você durante esse tempo.

Com lágrimas nos olhos, eu tentava não desabar e tentava perdoá-lo.

— Você fica bonito quando chora. Disse ele. Fazendo alusão a “Pretty When You Cry” de Lana Del Rey.

Eu esbocei um sorriso tímido.

— Você me perdoa? Ele me perguntou.
Eu não sabia o que responder. Eu esperava um adeus e não uma reconciliação. Eu estava confuso sobre os meus sentimentos para com ele e não sabia como responder – ou achava que não.

— Eu te perdôo. Essa frase não foi dita por mim, mas por um coração que estava ferido e cansado de lutar contra esse sentimento.

Saímos dali e fomos para casa. Na verdade, ele me levou até a casa dele.

Estava tudo organizado e arrumado conforme era a nossa época juntos. Tudo boêmio, com as samambaias penduradas no suporte vintage de madeira que eu havia lhe dado. 

Passamos a noite toda conversando e contando experiências. Eu deitado em seu colo, enquanto fazia cafuné no meu cabelo, até que adormecemos...
Parte 1.
Lista
01. Cruel World (título do texto)
02. Ultraviolence
03. Shades of Cool
04. Brooklyn Baby
05. West Coast
06. Sad Girl
07. Pretty When You Cry
08. Money Power and Glory
09. Fucked My Way Up To The Top

10. Old Money

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